
Tem um livro que nunca consigo terminar, por mais interessante que seja, chamado A jangada de pedra, do grande José Saramago. A ficção conta o estranho fenômeno em que a Península Ibérica se destaca do resto da Europa e sai flutuando pelo oceano, sem rumo, e todas as conseqüências sociais e econômicas que isso causa em todo o mundo. Entre diversos personagens estranhos, dois deles embarcam em uma viagem atravessando Portugal para chegar até o ponto de ruptura e, em um dos pernoites em um hotel, assistem o “Jornal Nacional” de lá noticiar que uma cidade do interior foi totalmente destruída no momento da separação.
O repórter da TV mostrava, na história, imagens da tal cidade antes da destruição e reportava as perdas e mortes quando um dos personagens comentou que havia conhecido a cidade em questão. Falou rapidamente sobre um ou outro local mostrado na notícia e contou brevemente suas experiências e recordações do local. O outro personagem refletiu, imediatamente, como é engraçada a pisquê humana: ele não sentiu absolutamente nada com a contagem de mortos, as imagens das construções destruídas. Mas sentiu um profundo pesar por aquele local que nunca havia conhecido quando seu amigo expressou sua opinião sobre a cidadezinha e contou seus “causos” por lá.
Por que levei dois parágrafos grandes para contar esta passagem do livro? Porque ela representa bem o grande poder dos blogs, assunto que conversava com outros blogueiros durante essa semana. Opinião é o principal produto de um blog pessoal porque aquilo que o leitor de um blog quer saber ao visitar aquele endereço é justamente sua opinião sobre determinado(s) assunto(s). Você se expõe, expõe suas idéias, suas opiniões, seus “achismos”, Poe a cara à tapa para receber elogios e críticas e é isso que atrai os leitores – Você é uma PESSOA, não a marca de uma empresa de comunicação/ jornalismo. Voltando ao exemplo acima, o blogueiro é o tal amigo que comentou sobre a cidade devastada e o impacto de seu comentário a respeito pode ter mais peso na pisquê do leitor, que se sensibilizou mais com seu post do que com a cobertura jornalística que viu no Jornal Nacional.
Não estou falando nada de novo: o assunto foi abordado no BlogCamp do ano passado, onde alguns palestrantes cantaram a pedra de que o nome do blogueiro (e de seu blog, se o mesmo for batizado com nome diferente de seu autor) tornam-se “marcas” – mas não no sentido ruim ou corporativo da coisa. Marcas são seguidas, amadas, estabelecem alguma relação de amizade ou proximidade maior com seus consumidores. Quantas pessoas você conhece que não cansam de dizer que amam a Apple ou a Coca-Cola e odeiam a Microsoft?
Você, blogueiro, por ser blogueiro, já corre um grande risco de ter um grande peso opinativo em seus leitores pelo simples fato de ser blogueiro, (a princípio) livre das amarras de uma empresa de comunicação que é ou precisa ser tendenciosa por motivos mil. Se suas idéias, aliadas ao seu jeito de escrever, conquistam leitores fiéis, pronto: Você se torna, sem que Você mesmo ou seus leitores percebam disso, uma marca que inspira confiança.
Quer exemplos disso? Nomes como Kibe Loco e Jacaré Banguela (hoje, parte do portal Globo.Com) são grandes referências de blogs de humor enquanto o blog do jornalista Ricardo Noblat, mesmo sendo “hospedado” dentro do site do jornal O Globo, é considerado por seus leitores praticamente um porto seguro para notícias verdadeiras sobre política.
Não se sinta mal por pensar que Você é uma marca, amigo blogueiro. Esta responsabilidade de influenciar seus leitores é, no fundo, uma coisa boa – quer dizer, deve ser, não é? Afinal, por que então Você criou seu blog? E não me venha com esse papo de “escrevo pra mim mesmo”, pois essa não cola: se Você quer escrever suas idéias somente para Você, compre um caderno com cadeado e chave e esconda-o debaixo do colchão. Não tenha medo de assinar as opiniões que joga por lá e, principalmente, não tenha medo dos feedbacks – positivos, negativos ou mesmo nenhum. O importante é que Você colocou pra fora aquilo que acha relevante anunciar por aí, a quem interessar possa, sem que ninguém te diga “não, Você não pode falar disso”. Essa é a beleza do blog. Por isso, quando for fazer um, não crie uma marca, um título estranho e escreva sem assinar: assuma seus textos e jogue suas palavras ao mundo: o mundo lhe falará de volta.
Assinado: Leonardo “Ock-Tock” Paiva

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One Response
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Uau! Criador e criatura fundidos finalmente: Leo e Ock… Puxa!
Adorei o texto. Realmente é simples assim. Nossa jugular está invariavelmente exposta e essa é toda a graça.
Bjins
=)