Quem vigia Zack Snyder?

Sim, eu li a obra em quadrinhos quando ela foi lançada no Brasil pela primeira vez, lá pelos anos 80. Eu também pirei quando li aquela proposta tão diferente, pessimista e “realista” de um universo de super-heróis. Com o tempo, percebi que Watchmen é, na verdade, uma obra literária bastante complexa e que os uniformes ridículos e conceito de “vigilantes” são apenas pano de fundo para a trama. Definitivamente, não se trata de uma “revista de super-heróis”, mas de uma excelente história com argumentos, diálogos e situações que te fazem pensar. Essa é a essência da obra de Alan Moore que, como dizem por aí, “revolucionou os quadrinhos”.
Entendo que o diretor Zack Snyder, fã de quadrinhos e de Watchmen como milhões no mundo, quisesse colocar tudo aquilo na telona – que diretor fã de quadrinhos não ia querer? E lá foi o homem comprar o maior desafio aos olhos dos leitores: levar aquela história de 12 volumes, tão trançada, tão elaborada e cheia de detalhes que fazem dela um marco, para uma película de duas horas e meia. E ele quase conseguiu.
Quem leu a obra não vai se incomodar com a perda / as alterações de muitos detalhes e subtramas que as 12 edições da história traziam – afinal, se todas elas fossem fielmente retratadas, Watchmen deveria ser uma mini-série super-produzida da HBO de sei-lá-quantos capítulos ou uma epopéia como Senhor dos Anéis: um filme de 10 a 12 horas dividido em três ou quatro partes. Mas não é. É um blockbuster que promete ser o maior da temporada e, por isso mesmo, ele tem que ter as características de um blockbuster. Ele é incrivelmente bem produzido e visualmente fiel à arte do desenhista Dave Gibbons, aliada a uma trilha sonora fantástica de velhos rocks e canções pop dos anos 60, 70 e 80 (afinal, o filme se passa em 1985, assim como a obra original – ponto para Snyder, que preferiu não “atualizar” o contexto). Diálogos semelhantes e muitas fotografias que imitam as principais e mais marcantes cenas das revistas. Tudo isso é de encher os olhos.
Snyder, no entanto, seguiu o caminho que eu já sabia que ia seguir. Aos olhos de Hollywood e dos espectadores em todo o mundo que nunca leram a obra, trata-se apenas de um blockbuster de super-herói e, como tal, o filme tem a obrigação de dar a eles o que eles querem: cenas de luta e ação impactantes de seus uniformes causando um visual cool na telona, sangue, ossos quebrados… Snyder estava quase querendo ser um Tarantino nessas horas, mas sem o talento pra sanguinolência de Quentin. Essas cenas ocuparam espaço que seria destinado aos detalhes que elaborariam e dariam mais significado às tramas e subtramas que, em grande parte, estavam todas lá, mas tiveram que ser comprimidas em poucos minutos por parte de filme, fazendo com que cada personagem fosse somente mais um maluco fantasiado com problemas psicológicos sérios – alguns visivelmente mais graves que outros, mas todos mereciam ser capados e jogados em salas acolchoadas vestindo camisas de força. Quem nunca leu os quadrinhos pode ter tido essa sensação ao final do filme e saído de lá pensando “então é isso que esses nerds endeusam tanto?”. Não, não é..
Tenho certeza de que Zack fez esse filme de coração, querendo levar para o cinema toda a complexidade da obra de seu ídolo, mas não adianta: continuei me sentindo como se assistisse um grande e colorido clipe da MTV enquanto reconhecia a trama, que eu já conhecia da revista, presa no sótão e batendo enlouquecidamente a porta, querendo sair. Uma pena.

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