21 March 2009       Tock-Categoria: Outros

Somos todos transparentes

Era uma vez uma cidade. Não era uma cidade grande. Seus moradores eram humildes, mas felizes. Até o dia em que chegaram opressores de outro lugar, longe dalí, e impuseram regras que favoreciam apenas aos estrangeiros e humilhavam os moradores da cidadezinha.

Pacificamente, os moradores da cidadezinha manifestaram-se contra as leis impostas e, em resposta, os estrangeiros opressores contiveram o protesto com tiros. 69 moradores morreram e 180 ficaram feridos.

A cidadezinha em questão chama-se Sharpeville e fica na África do Sul. A caminhada de cinco mil moradores de lá aconteceu para protestar contra a Lei do Passe, que obrigava os negros a usarem um cartão onde estava escrito onde eles poderiam ou não ir. Por causa deste lamentável episódio, que fez o mundo prestar atenção no Apartheid pela primeira vez, é que a ONU estipulou a data de 21 de março como o Dia Internacional contra a Discriminação Racial.

O episódio de Sharpeville faz 49 anos hoje.

O Apartheid foi finalmente abolido da África do Sul em 1990, mas o preconceito e a discriminação racial ainda existem e, francamente, não há nada mais “idade média” que isso. É triste ver que, em vez de evoluirmos, mascaramos a questão com a imposição do “politicamente correto”, comumente aproveitada pela mídia. Ontem mesmo vi um exemplo disso na forma do cartaz de uma operadora de celulares: com uma frase de efeito que convida seus clientes a abrirem suas mentes para pensamentos “sem fronteiras”, eles colocam na foto uma menina negra com um menino branco. Posso parecer rabugento, mas uma frase daquelas com o que a imagem queria transparecer (um casal formado por uma pessoa negra e outra branca) parecia que tal conceito ainda precisa ser imposto à sociedade. Aos olhos do comercial, um casal bi-racial ainda é um tabu – e para muitas pessoas é mesmo, um verdadeiro disparate de pensamento em um país tão misto quanto o Brasil.

Em tempos de preocupação com o planeta Terra, as mudanças climáticas, o efeito estufa e a escassez de água, temos cada vez menos tempo de olhar para problemas sociais como o preconceito ainda presente em todas as sociedades, algumas de forma mais velada, mas ainda lá. Quem sabe, frente a fúria da Mãe Terra por termos abusado dela durante todos esses séculos, a humanidade passe a se ver além da cor da pele e perceba que todo mundo sangra igual? Para o planeta, somos todos transparentes – passemos a ser também uns para os outros.

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