
Quem mandou entrar em uma loja de CDs e DVDs depois e tantos anos? Foi só bater os olhos na estante e estava lá, me esperando o DVD triplo de Snakes & Arrows Live, da melhor banda do mundo de todos os tempos (vocês já sabem de quem estou falando, certo?). Não resisti e comprei -fazia tempo que não comprava música ou um show assim, na forma de uma mídia, mas isso é papo pra outro dia.
Este texto é, na verdade, uma espécie de auto-flagelo por ter duvidado do Rush: o DVD traz um show gravado na Holanda, da turnê do último disco da banda, Snakes & Arrows, que eu comentei negativamente por aqui tempos atrás – natural, então, que os caras enchessem a apresentação de músicas novas. E foi o que fizeram. Já eu, vítima da modernização do cotidiano, há tempos só venho ouvindo música “no caminho”, ou seja, via MP3 no celular enquanto me dirijo de um lugar para outro ou enquanto estou fazendo outra atividade (enquanto escrevo este texto, por exemplo, ouço o DVD rolando no computador). Isso é um show do Rush, caramba, é algo que merece total atenção. Ao parar tudo para focar-me inteiramente em ver e ouvir a apresentação, prestei a devida atenção às músicas de S&A pela primeira vez.
Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa! Como pude cometer a heresia de dizer que Snakes & Arrows está aquém da banda? A empolgante Far Cry continua sendo um “novo clássico” do trio, mas as outras músicas atingiram um nível tal de lirismo, melodia e letra que só mesmo 30 anos de estrada e uma brilhante carreira poderiam dar. São músicas feitas por músicos que já não precisam provar mais nada pra ninguém, que estão fazendo o que querem e quando querem, apenas para se divertir, preocupados em fazer algo que agradem aos seus ouvidos. E os caras têm realmente um grande bom gosto. Entre as novas canções, dou destaque a The Larger Bowl, Armor and Sword e à instrumental Malignant Narcisism, além da óbvia e já citada Far Cry, claro.
Quanto ao show, é simplesmente fantástico! Ao contrário do que se pode imaginar de um show de rock, as apresentações do Rush são muito bem humoradas e engraçadas – não em suas músicas, que tratam de temas ora sérios e reflexivos, ora voltados para histórias fantásticas, mas nas brincadeiras que Geddy Lee (baixo, teclado e voz), Alex Liefison (guitarras) e Neil Peart (bateria) fazem a todo tempo entre si e com o público como se estivessem em casa, nos vídeos que rolam no telão (como os garotos de South Park tentando tocar Tom Sawyer para anunciar a música) e até na decoração de palco como os fornos de assar frango, no melhor estilo “televisão pra cachorro”, que contam até com um figurante vestido de cozinheiro ou de frango (???) entrando no palco no meio do show para ver se estão prontos.
As músicas antigas do setlist são um espetáculo a parte: desde 2003 o trio vem incluindo nas apresentações músicas que pouquíssimas vezes tocaram ao vivo e nunca foram gravadas em outros discos live deles. Desta vez, além de clássicos como YYZ, Spirit of Radio e Passage to Bangkok, vemos Circumstances, a belíssima Entre Nous (que eles nunca tocaram em um show) e Between the Wheels, um dos mais belos refrões que eles já fizeram.
As filmagens do show agradam principalmente os fãs que tocam algum instrumento: o vídeo é mais concentrado na banda, na interação entre os três e em suas mãos, demonstrando a maestria e a tranqüilidade com que executam as melodias complexas que tornaram-se características de suas músicas – praticamente uma grande resposta à pergunta “caramba, mas como é que eles fazem ISSO???” que Alex, Geddy e Neil (principalmente este, com seu solo de bateria, obrigatório em toda apresentação da banda) provavelmente ouvem a 30 anos. Se você ainda não conhece nada de Rush ou nunca mais ouviu os caras depois do antológico Moving Pitcures e quer saber como estão hoje, este é o seu ponto de partida. Recomendação máxima!

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