
Tenho um computador co 4Gb de memória, três HDs (um deles só para música) e um grande monitor LCD ligado nele. Minha conexão de 3Mb e Internet permite que eu assista conteúdo multimídia, navegue por páginas diversas e converse com várias pessoas pelo Messenger, tudo ao mesmo tempo. Quase todas as pessoas que conheço vivem uma “situação tecnológica” semelhante, muitas vezes até mais avançada que a minha com seus notebooks, mini-laptops e smartphones conectados via 3G, que lhes permitem twittar da fila do banco ou do trânsito, além de seus desktops com dois monitores e configurações muito mais avançadas que a minha. Cercado desta realidade, só posso concluir que este é o cenário do típico internauta brasileiro.
Este é um erro muito comum, cometido pelos internautas heavy users. Neste cenário, nós trocamos idéias e sugestões, via Twitter, de como tornar a Internet cada vez mais colaborativa, funcional e cool de se usar e viver. Mergulhamos de cabeça em cada nova ferramenta e tecnologia que aparece com a fome de quem não vê nada mais substancial que uma alface há meses, participamos de eventos e palestras de Internet e tecnologia em geral, fazemos amizades reais cujo contato é mantido de forma virtual, criamos e ouvimos podcasts, criamos e lemos blogs, criamos e participamos de fóruns… Normalmente trabalhamos nesta área ou em algo que envolva a Internet em nosso dia-a-dia e, por conseqüência, nossos colegas de trabalho também. E nossos amigos. E nossas caras-metade. E os amigos de nossos amigos, que se tornam nossos amigos também. Mas nós não somos referência.
Em janeiro deste ano, foi divulgado o número de internautas domésticos no país: 24,5 milhões. Perto dos cerca de 170 milhões de brasileiros, de acordo com o último censo no país, realizado em 2000, esta quantidade de internautas ainda não me impressiona a ponto de dizer que o Brasil é um país conectado, mas vá lá: vamos trabalhar apenas neste universo – se considerarmos a galera que navega pelos mares virtuais através de lanhouses, podemos arredondar este número para 25 milhões.
Então são 25 milhões de internautas brasileiros ávidos por novidades tecnológicas, que criam blogs, ouvem podcasts, vão aos Descolagens, BlogCamps e CampusPartys da vida, certo? Na verdade… Não. O CampusParty, evento geek mais badalado até agora, registrou cerca de 6,5 mil pessoas inscritas. Agora sim: são 6,5 mil geeks ávidos por tecnologia e novidades online e… Ainda não. Foram vários os blogs (os donos desses, sim, geeks de carteirinha) que relataram um público que não era exatamente o perfil do evento, que chegou lá pro oba-oba por conta do burburinho criado e se decepcionou quando viu que não era bem sua praia.
Não é todo mundo (na verdade, uma grande maioria) que conhece os hypes do momento na Internet e, pra falar a verdade, não está nem aí para eles. Second Life, Twitter, qualquer outra coisa do Google que não seja o GMail e a ferramenta de busca… Nada disso faz parte da vida dessas pessoas e eles estão muito bem assim, obrigado, concentrados mais em suas vidas offline, usando a Web como ferramenta ocasional de trabalho ou, nos momentos de lazer, fazendo uso da dobradinha “Orkut+MSN” e considerando que isso é o máximo de inovação digital que eles precisam.
Claro que é interessante que todos tenham esse mesmo interesse e curiosidade de experimentar as novidades que a Internet oferece e cabe a nós, entusiastas digitais, evangelizar isso por aí, mas este não é um processo rápido – não basta simplesmente abrir o navegador e mostrar o “maravilhoso mundo do Twitter” que a pessoa arregalará os olhos como se estivesse vendo a Terra Prometida. Enquanto isso, não podemos nos tomar como referência de povo brasileiro conectado e estranhar toda vez que alguém não souber o que é Twitter, linked in, Digg, Flickr, etc. E não me venha dizer “ah, não é assim, todo mundo que eu conheço tem isso tudo”. Todas as pessoas que eu conheço também têm, mas pensar que nós conhecemos todo mundo no Brasil só por conhecer quem conhecemos é o grande tropeço. As ferramentas sociais ainda são muito pouco conhecidas por aqui e só podem ser consideradas populares mesmo quando todos no Brasil, inclusive a imprensa offline como os telejornais e revistas, deixarem de falar delas como novidade e tratá-las como uma ferramenta corriqueira. Até lá, é nossa responsabilidade descermos de nossos pedestais, assumirmos que nosso mundo geek não é tão vasto quanto costumamos pensar e desbravarmos as terras estrangeiras para evangelizar e agregar cada vez mais pessoas à nossa causa, com paciência e um sorriso no rosto.

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One Response
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Ótimo artigo.
É uma pena a grande maioria dos usuários ficarem na dobradinha Orkut/MSN , quando se tem milhares de outras opções para diversão e comunicação.