
Então fundou-se a Altercon. A Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação foi criada por empresas e empreendedores para defender os interesses de mídias e empresas de comunicação independentes – por “mídias e empresas de comunicação independentes” podemos entender sites, blogs (e seus blogueiros) e produtoras diversas (de vídeo, rádio, de revistas, de jornais, etc.) que operem fora do círculo das grandes empresas de comunicação. Mas que empresas e empreendedores são essas? Ainda não sei, pois os detalhes dessa associação como estatuto, registro em cartório, escritório, direção e site devem ser definidos nos próximos 20 dias, como bem disse a nota no site Comunique-se.
Como tudo, existe o lado bom e o lado ruim. O lado bom, por enquanto, só é vislumbrado em tese: as pessoas comuns que produzem conteúdo de forma indepentende através de seus blogs, podcasts ou participando de comunidades nas diversas redes sociais que existem por aí teriam algum apoio quando acusados injustamente de qualquer atrocidade vista apenas pelos olhos do acusador e processados por uma grande empresa e sua matilha de advogados escolados nesses procedimentos. Já perdemos a conta de quantos processos foram noticiados – o mais recente que lembro foi o da blogueira Claudia Mello, condenada a indenizar um médico por simplesmente relatar em seu blog um episódio onde foi mal atendida (saiba os detalhes aqui), mas esta é uma gota no mar de casos que foram parar injustamente na Justiça só aqui no Brasil. Não vou dizer que todos os blogueiros são, unanimamente, uns santos. Pode haver sim aqueles que ofendem gratuitamente e divulgam inverdades graves e devem pagar por isso, mas aqueles de boa índole poderão ter (se a Altercom funcionar mesmo) um apoio na hora de brigar por seus direitos e liberdades contra seus rivais opressores ou oportunistas menos cotados.
O lado ruim é que a criação dessa associação toca ainda mais fundo em uma velha ferida que alguns não querem deixar fechar: “são, os blogueiros, jornalistas?” Com o vai-e-volta da obrigatoriedade do diploma de jornalismo que já virou piada e agora a criação de um órgão que defende “o direito de blogar” (seja lá o que for o verbo “blogar”), os blogueiros terão ainda mais argumentos para defender seu lugar ao sol – nada contra! Conheço muitos blogueiros não-jornalistas que fazem um excelente trabalho naquilo que se propõem fazer como, por exemplo, o blog Target HD do Eduardo Moreira, que é constantemente atualizado e fala muito bem de informática e tecnologia para o usuário final, gadgets, Internet e assuntos relacionados. O que me incomoda nessa questão é ver aquele moleque de 14 anos “excrever em miguxêx qui AVATHAR éh muuuuuuuitcho lindxu” e achar que já pode virar o próximo (coloque aqui o nome do seu crítico de cinema preferido). Qualquer um pode criar um blog, mas nem todo mundo pode ser um produtor de conteúdo relevante.
Estou, porém, me adiantando. Essa questão de ying/yang da Altercom é, na verdade, papo para daqui a alguns anos, quando a associação realmente ganhar força e pudermos analisar para onde ela estará indo. A pergunta mais urgente a fazer agora é: a Altercom vai mesmo ganhar força e decolar? Fará mesmo a diferença e conseguirá representar a “mídia independente”, defendendo os direitos dos blogueiros, dos sites menores e das produtoras de conteúdo em pé de igualdade com outras siglas mais tradicionais como ANER, Abert e ANJ?
Sinceramente, eu espero que sim. Como jornalista, eu defendo a existência e a preservação dos grandes veículos e empresas de comunicação como as Organizações Globo, o SBT, a Abril e a quem mais servir a carapuça, pois acho o povo ainda precisa de referências sólidas em conceitos mais tradicionais para se basear (se os grandes naipes de comunicação fazem ou não um bom trabalho, livre de tendências, interesses e manipulações, é outro papo muito, mas muito mais complexo), mas aprecio a “iniciativa independente” desde a época em que, quando adolescente, eu fazia fanzines de folhas de apapel A4 “xerocada” na papelaria da esquina para distribuir no colégio ou nos shows de bandas alternativas, cultura que foi digitalizada nos tempos da Interrnet e convertida para a era dos sites pessoais hospedados no GeoCities e, mais tarde, para os blogs.
O fortalecimento dessa visão absolutamente livre de amarras editoriais ou comerciais é muito importante para todos, inclusive para a própria indústria da mídia. Ela serve como termômetro para que todos nós saibamos o quanto os grandes veículos e seus leitores, que agora também são “produtores de conteúdo livre”, estão alinhados ou não e onde eles discordam. Se esses pontos de conflito são relativamente poucos e pequenos, quer dizer que a imprensa tradicional estará caminhando na direção correta, olhando para a mesma direção que o público a quem atende. Para que os resultados deste termômetro sejam realmente confiáveis, era mesmo necessário que: a) fosse criada uma associação que defenda os direitos da mídia independente e zele pela sua qualidade; e b) que essa associação funcione corretamente e ganhe força para representar essa mídia independente em pé de igualdade. A primeira parte está feita. Vamos ficar de olho na Altercom e garantir para que a segunda parte também seja cumprida.

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