Tock-categoria: Música Digital
Canções fast-food e músicas banquete

Enfim um acontecimento prático que demonstra nitidamente o choque do velho com o novo no que diz respeito ao jeito de se fazer música. De acordo com essa notícia, o Pink Floyd está processando a gravadora que lançou seus discos, a EMI, por descordar com o jeito da empresa de vender suas músicas online. Estaria a gravadora dizendo que estão vendendo as músicas da banda por um valor menor do que seu lucro real? Bom… De acordo com o grupo, sim, mas essa, incrivelmente, não é a questão principal.
O que realmente está incomodando os integrantes é o fato de que a EMI está vendendo separadamente as músicas que compõem discos como The Wall e Dark Side of the Moon – discos esses que foram concebidos como obras fechadas e que, segundo a banda, não funcionam sozinhas. É como se The Wall não fosse um disco com várias músicas, mas um disco com uma única música de aproximadamente uma hora e vinte minutos dividida em vários subtítulos. Comprar apenas os títulos Another Brick in the Wall, One of My Turns, Comfortably Numb e Run Like Hell e não obter o resto da obra seria obter apenas pedaços de uma música. De acordo com a notícia, a banda alega que há até mesmo uma cláusula no contrato proibindo a gravadora de realizar esse tipo de venda, “decompondo” a obra em questão.
O grupo não está errado em defender a integridade de suas obras – foi assim que elas foram pensadas nos anos 70 e é assim que elas devem ser comercializadas. A chave da questão está no pedaço “nos anos 70” da frase. O grupo não está errado… Mas está defasado.
O comércio online de música é coisa dos anos 2000, uma época em que a “música-arte” está sendo cada vez mais substituída pela “música-produto”, aquela que deve ser digerida facilmente, que deve entreter por alguns minutos e depois descartada. Já escrevi um texto sobre “música perecível” tempos atrás e, aqui, o assunto volta à tona sob outro aspecto: há espaço para a “música-arte” nos dias de hoje?
Me chame de otimista, mas eu gosto de pensar que a minha realidade não é a mesma de todos – na verdade, acho que faço parte de um grupo ínfimo que possui rotina e gostos semelhante dos meus. Se, hoje em dia, o tempo (ou falta dele) e a correria do dia-a-dia de trabalho, vida pessoal e de projetos diversos não me permitem “degustar música” como gostaria, não quer dizer que os 180 milhões de brasileiros ilhados aqui em Vera Cruz tenham essa mesma paranóia de produzir, trabalhar, cumprir prazos e só conseguem ouvir música através de seus MP3 players enquanto se locomovem a grandes distâncias. Ainda há aqueles que param para ouvir música sim e até mesmo aqueles que, mesmo tendo essa rotina corrida, querem parar para ouvir trabalhos musicais com toda atenção e dedicação que eles merecem.
Tendemos a ter a impressão de que o atual cenário musical e a nova forma de consumir música transformam todos os ouvintes em um único tipo de ouvinte, aquele que ouve uma canção como se fosse um big Mac e que, por isso, só consome músicas fast-food, mas isso não é verdade. A música digital amplia horizontes, atinge cada vez mais pessoas de todas as classes sociais, costumes, credos e costumes – não é possível que, dentro dessa variedade, todos estejam robotizados e se contentem em comer o mesmo quarteirão com queijo e milkshake de ovomaltine todos os dias.
Há espaço sim para a música-arte e para seu comércio rentável no mundo da música digital. Basta que seus comerciantes respeitem a obra, o artista e o público-alvo de cada perfil e nicho musical que todos saem ganhando. O banquete cuidadosamente preparado pelo mundialmente reconhecido chef de cozinha dá tanto lucro (se não mais) que o Big Mac feito em cinco minutos e consumido em dois. Pegue seu MP3 player, encha-o com seu prato preferido e aprecie da maneira que ele deve ser apreciado. Bon apetit para seus ouvidos.
Novos sons pela Highway 61 virtual

Eu sempre disse que a estrada é a melhor professora para um músico e, antigamente, a chamada Highway 61 foi uma das maiores professoras de música dos Estados Unidos. Bob Dylan, Elvis, Muddy Waters e B.B. King, entre outros, aprenderam muito com ela, saindo de casa e seguindo seus asfaltos em direção ao mundo. E deste conceito que parte o site TheSixtyOne.Com, um endereço que destina apresentar novos artistas para o mundo, servindo como uma versão virtual da estrada americana.
A idéia é simples: o site apresenta uma música de cada artista independente que se dispõe a apresentar seu trabalho por lá e oferece o CD do mesmo à venda por 7 doletas, atuando como uma plataforma de venda de música sem passar por intermediários como gravadora ou distribuidora – uma relação diretamente artista-fã. A cada 30 dias, o site garante repassar para o artista todo o lucro de suas vendas através dessa highway digital.
O visual do site é simples e impactante, beneficiando ambos: o artista, que ganha uma grande vitrine (mesmo) para apresentar suas músicas, e o ouvinte, que ganha mais um canal para descobrir novos sons muito legais e ainda pode votar em cada um deles, dizendo se gostou do som ou não, e colaborando com o ranking geral do endereço.
Eu já estou com minha mochila pronta para embarcar numa viagem musical através dessa estrada. E você?
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21 January 2010 Tock-Categoria: Música DigitalEi, tem um Beatle na minha loja!

Em 2007, a loja de CDs americana Amoeba Music recebeu ninguém menos que sir Paul McCartney em sua filial de Hollywood para uma apresentação intimista para as centenas de fãs que acamparam por dias na porta do estabelecimento. A apresentação de cerca de uma hora e meia lembrou os áureos tempos em que os desconhecidos Beatles se apresentavam no minúsculo Cavern Club, mesmo que a casa de shows inglesa tivesse um terço do tamanho da loja. Clique aqui e assista a um vídeo com cenas da apresentação.
Como se essa novidade, mesmo que antiga, não fosse interessante, a Amoeba lançou recentemente, em homenagem ao Grammy que McCartney ganhou em 2009, um CD exclusivo da loja com algumas músicas dessa apresentação. A bolacha prateada não é privilégio para o ex-Beatle: a rede de lojas (exstem mais duas, uma em São Fancisco e outra em Berkley) possui uma espécie de selo que lança CDs de gravações de shows que acontecem em suas filiais. Por aqueles palcos já passaram outros nomes como Supergrass, old 97’s e até os nossos Mutantes deram sua “palhinha” por lá! Alguns desses shows também viraram CDs que são vendidos nas lojas da Amoeba e também pelo seu site.
Em um cenário tecnológico-econômico onde as gravadoras choram uma declarada queda de venda de CDs, a Amoeba criou uma forma de continuar no mercado muito interessante, que atinge direto o coração do apaixonado por música, mudando o seu conceito aos olhos do cliente. Com esses shows, a Amoeba deixa de ser aquele lugar onde o consumidor, interessado no CD, entra (ou entrava) simplesmente para comprar a bolacha prateada e ir embora e passou a ser um lugar onde a pessoa quer estar e ficar, pois há ainda mais atrações para ela lá. Comprar um CD ou qualquer outra coisa relacionada ao artista torna-se uma feliz conseqüência para aqueles que passarão a entrar naquele local quase que diariamente. A Amoeba deixa de ser uma “loja de CDs” e passa a ser um ponto de encontro de amantes de música, onde você pode encontrar tudo a respeito dos seus artistas musicais preferidos – inclusive suas obras e, se der sorte, até mesmo o próprio artista dando o ar de sua graça no pequeno palco.
Esta é uma excelente alternativa para um problema que, talvez, a Amoeba não esteja sofrendo, que é o da queda de venda de CDs. Recentemente, conversei com alguns amigos que são donos de lojas de rock (cuja principal mercadoria que vendem são os CDs das bandas) e eles foram honestos comigo ao responderem que não sentiram uma queda tão acentuada nas vendas desde o surgimento do Napster e a evolução da tecnologia de compartilhamento de músicas. Isso acontece porque seu público é um nicho muito específico, que é, em sua maioria, colecionador daqueles que se orgulham em ter algo físico em mãos. Não basta ter a música – é preciso ter a obra paupável, com encarte e tudo mais.
Isso ainda não é o fim da questão, mas dar uma atenção cada vez mais dedicada aos seus diversos públicos pode ser mais uma alternativa que as gravadoras poderiam pensar com carinho a fim de se adaptarem ao mercado da nova música digital.
A platina não é mais aquela

A primeira impressão que se tem do mercado fonográfico neste comecinho de 2010 é que ele deu uma “desinchada” em seus valores e lucros em comparação com sua situação de 10 ou 20 anos atrás. Até 2004, um artista ganhava o disco de ouro no Brasil quando sua obra vendia 100 cópias e o disco de platina quando as vendas chegavam a 250 mil. Hoje em dia, o disco de ouro é dado àquele artista que vende acima de 50 mil cópias e disco de platina, a partir de 100 mil.
Por aqui, algumas coisas ainda não mudaram depois de todo esse tempo como, por exemplo, o gosto da maioria da população. Os CDs de sertanejo, religioso e as trilhas sonoras de novela continuam sendo os mais vendidos – a dupla Zezé de Camargo e Luciano continua liderando as paradas populares, como fazem quase sempre desde o começo dos anos 90. Os padres e pastores do momento vêm logo após. A diferença é que, em 2009, os irmãos venderam 218 mil cópias de seu último CD. Não dá nem para o cheiro, comparado com as 950 mil unidades do disco que eles lançaram em 1993, por exemplo. Eles perderam o jeito de cativar o público brasileiro? Não: este público é que está consumindo música através de outros meios.
A Associação Brasileira de Produtores de Discos confirmam que o CD ainda é responsável pela maior parte do faturamento (61%), seguido pelo DVD (27%) e, por fim, da música digital (12%). Esta última forma de comercialização de música tem crescido bastante no Brasil – de 2006 para 2007, por exemplo, o comércio de música digital cresceu 185%, grande parte por conta da venda de músicas através de serviços de operadoras de celular, sem contar o crescimento considerável de venda de música através da Internet. A classe C, cada vez mais representativa na economia brasileira, demonstra intimidade com o celular desde que o aparelho telefônico portátil tornou-se mais acessível ao bolso de todos e a mesma coisa está acontecendo com a Internet: as lojas de eletrônicos como Casas Bahia, Ponto Frio e afins oferecem computadores a prestações que cabem no bolso de todos, a banda larga está cada vez mais barata e projetos de “banda larga popular” já em início de execução em vários estados não faltam, mostrando que, em algum tempo, serviço de Internet de pelo menos 1 mega de velocidade será um corriqueiro recurso em todo apartamento e casa, tal como água, luz e gás. Isso significa que a classe C, mais ávida consumidora de música no Brasil, terá cada vez mais acesso à música de forma digital, consolidando o cenário do crescimento do mercado de música digital.
É claro que tudo isso também fomenta o cenário do que as gravadoras chamam de “pirataria digital”, mas isso é assunto que já foi discutido em outros textos deste blog e será novamente em outras oportunidades – isso, porém, não muda o fato de que o mercado está mudando a forma como as gravadoras comercializam seu principal produto, a música, através da diversificação da divulgação das obras de seus artistas, sem falar que os artistas independentes, se assim preferirem, podem por a mão na massa para divulgarem seus trabalhos sem obrigatoriamente precisarem de uma major para entrar na jogada.
O mercado fonográfico, que vem sofrendo uma gigantesca metamorfose desde o surgimento do Napster, em 1999, começa a mostrar os primeiros traços de sua nova forma. Muita briga ainda vai acontecer por conta da pirataria, das gravadoras e do tráfego livre de música digital, mas podemos ver um lampejo ao fim do túnel. Espero estar vivo para testemunhar a cara do novo mercado fonográfico quando ele sair de seu casulo.
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31 October 2009 Tock-Categoria: Música DigitalAo vivo na Web

Nesta noite de Haloween, o Foo Fighters transmitirá seu show no Estúdio 606, na Califórnia, em tempo real através do perfil da banda no Facebook (no horário de Brasília, começa à meia-noite de hoje). A iniciativa segue a onda da transmissão do show do U2 pelo YouTube, que aconteceu a poucos dias atrás. O Download Festival, que aconteceu na Inglaterra entre os dias 12 e 14 de junho também foi todo transmitido através do próprio site do evento – pude ver Dream Theater
, Faith No More
(se não me engano, foi a segunda apresentação da banda após seu retorno) e várias outras apresentações com uma qualidade de som e imagem impecável, como se estivesse vendo a transmissão de um Rock in Rio pela Globo.
É uma tendência interessante essa de transmitir shows ao vivo, em tempo real, através da Internet, mas que pode se chocar com outra proposta de lucro para os artistas, que é a de investir nos shows para ganhar o dinheiro que eles não estariam ganhando com a (não) venda de CDs – afinal, se dá pra ver pela Web, pra que pagar mais de 100 reais para ir ao show? Ese é o primeiro pensamento que vem à mente, mas calma: vamos analisar a situação um pouco mais detalhadamente.
Parto do princípio de que não dá para piratear show e nem mesmo replicar em vídeo, seja em DVD ou em transmissão pela TV ou Web, a emoção de estar lá no local, junto com a galera, cara a cara com aquele artista ou banda que você adora. Ele está cantando para você e não importa se ele não consiga te ver ou identificar no meio daquele mar de gente onde você é só uma gota. Você faz parte de algo quando estamos todos lá – público e artista – vivendo uma experiência que simplesmente não dá para descrever em palavras.
Sendo assim, pra que, então, transmitir um show pela Web? Para dar água na boca de quem não foi? Sim! Exatamente isso! Principalmente se a pessoa que não foi em questão mora em outro país. Voltando ao exemplo do Faith No More no Download Festival, a banda ainda não havia confirmado, em junho, seus shows aqui no Brasil, mas tenho certeza de que, quem viu aquela apresentação do quinteto no palco, mostrando que eles estão ainda melhores do que na época em que encerraram as atividades, falou “depois dessa, se eles vierem tocar no Brasil, eu preciso ir ao show de qualquer jeito!” Quem diria que um festival na Inglaterra garantiria a eles, no mínimo, algumas centenas de ingressos comprados a mais…
É claro que o custo de uma transmissão de alta qualidade como foram as do U2, do Download Festival e, daqui a pouco, a do Foo Fighters, é alto, mas com as parcerias certas para dividir o investimento, o retorno em publicidade é garantido. Assim como as bandas atingiram ainda mais fãs pelo mundo, o YouTube ganhou ainda mais usuários e a quantidade de perfis no Facebook vai aumentar consideravelmente a partir desta noite.
As transmissões ao vivo podem, então, trazer cada vez mais pessoas para as futuras apresentações das bandas – e isso não precisa ser apenas para o grandes nomes mundiais da música. A tecnologia e o acesso 3G à Internet estão, cada vez mais, se popularizando ao ponto de, em breve, casas alternativas de shows transmitirem as apresentações das bandas independentes em seus sites ou até mesmo as próprias bandas conseguirem fazer isso, tornando-se mais um atrativo para o internauta conhecer esse trabalho e interessar-se em ver outros vídeos, ouvir as músicas no perfil do grupo no MySpace e querer saber quando será o próximo show deles para curtir ao vivo aquilo que viu através do navegador.
Não sei se o Foo Fighters vai tocar no Brasil no ano que vem mas, mesmo que não venha, estou até pensando em abrir uma conta no tal de Facebook só pra não perder essa…
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11 August 2009 Tock-Categoria: Música DigitalPega eu, que eu sou ladrão

Quando Bezerra da Silva escreveu esse verso, com certeza, não imaginava a zorra e a polêmica que o mercado fonográfico se tornaria na virada do século, mas é isso que dá vontade de falar quando encontro notícias como a do projeto de lei criado pelo deputado Bispo Gê Tenuta (DEM-SP), que, se aprovado, penalizará o internauta que “faz downloads ou compartilha arquivos pela internet que contenham obras protegidas por direitos de propriedade intelectual” – leia a notícia completa clicando aqui.
Sempre fui um consumidor ávido de música, desde os tempos do vinil, passando pelo CD e, até chegar aos tempos da música digital com o MP3, mas sempre fiz questão de pagar pela obra dos artistas que aprecio. Sim, já baixei música de sites e programas como os finados Napster e Kazaa, mas sempre com o objetivo de conhecer novos sons, novas bandas, novos estilos musicais. Cansei de declarar aqui neste blog ou em versões anteriores dele que, se uma determinada banda ou artista me agrada, lá vou eu correr atrás dos CDs (No Doubt e Live são alguns dos vários nomes que conheci através desses softwares e paguei com muito gosto por suas músicas logo depois) – a única coisa que mudou de lá pra cá é que, em vez de comprar a mídia CD, eu compro os arquivos MP3, direto de sites diversos que oferecem a obra para download mediante pagamento.
Dito isto, acho errado quem faz uso de torrents, eMule e afins para obter música? Claro que não! Podem me chamar de otário, mas eu gosto de remunerar o autor de uma obra se a mesma me agrada – seja musical, literária, cinematográfica. Só que também sou um entusiasta da troca de conhecimentos, de informações e, principalmente, de cultura. Me dá gosto oferecer novos sons a quem não os conhece (até faço um podcast para isso) e ouvir artistas indicados por amigos meus. Essa capacidade de troca de culturas existe desde os tempos do antigo vinil e fita K7 e o que acontece hoje é apenas a forma digital deste fenômeno se manifestar. Nossa, como cansei de gravar fitas de discos de vinil de amigos meus e vice-versa.
Trazendo esta mesma prática para os dias de hoje: digamos que eu vou à casa de um amigo e ele me apresenta o novo CD de um artista que eu gosto. Não tenho mais fita K7 e ele não tem mais aparelho “3 em 1″, mas ele tem um computador onde pode “rippar” o CD e eu tenho um pendrive onde posso copiar os MP3 extraídos da bolacha prateada. Tornei-me um pirata por causa disso? Se é assim, eu sou criminoso desde meus seis anos de idade, quando me plantava em frente ao rádio-gravador de minha casa, pronto para apertar os botões “play” e “rec” do aparelho quando começasse uma música que eu gosto. Em tempos de amizade virtual, onde chamamos de amigo pessoas que encontram-se em outros países e nossa única forma de interação é através de instant messengers com webcam, os programas de compartilhamento de arquivo apenas estreitam essa troca de músicas entre esses amigos que não se encontram fisicamente próximos.
E não me venha com aquele papo de “você não sabe quanto o artista perde com o download ilegal”: a cópia de músicas existe desde que a fita K7 foi inventada e essa engrenagem não mudou: alguém compra a obra original e vários outros alguéns usam as ferramentas tecnológicas de suas épocas para obter suas cópias – o artista nunca ganhou muito dinheiro (quase nada, na verdade) com a venda de discos/ CDs, vide a briga do Lobão pela numeração das bolachas prateadas, mas ganha divulgação e novos fãs que pagarão, com prazer, por seus shows, aparições e outros produtos que levem seu nome. A conclusão que chego com isso é que NÃO EXISTE DOWNLOAD ILEGAL! A prática do compartilhamento de arquivos vem sendo constantemente confundida com aquela pirataria que acontece nos centros comerciais, onde o camelô vende três CDs caseiros à 10 reais, vendendo um produto falsificado a quem está interessado em obter a obra em mídia.
Ok, eu não sou compositor/ cantor/ músico famoso com uma bagagem de sucessos e que, conseqüentemente, teria “a perder” com o compartilhamento de músicas. Peço, então, que dê uma atenciosa lida no post do compositor/ cantor/ músico Leoni em seu blog Música Líquida, onde esta cabeça pensante da nova era musical (que, não por acaso, tem uma bagagem de sucessos) ilustra algumas ponderações a respeito das críticas mais freqüentes ao download gratuito.
Senhores do Poder Legislativo, espero não ser taxado como criminoso aos seus olhos apenas por ter um computador, conexão com Internet e arquivos MP3 enquanto verdadeiros criminosos continuam impunes. Senhores da indústria fonográfica, por favor, abram suas mentes e comecem a usar esta fantástica ferramenta de divulgação chamada Internet do jeito certo em vez de prenderem-se aos arcaicos modelos de negócio que já não funcionam mais há muitos anos. Tenho certeza de que, ao abandonarem esses velhos hábitos e adaptarem-se à nova era, todos nós (músicos, artistas, indústria e consumidores de música) ganharemos como nunca foi imaginado.
Pensem nisso.
iCensura

Trent Razor, o frontman do Nine Inch Nails, faz parte daquela trupe de artistas musicais que pensa e age de acordo com as mudanças do mercado fonográfico e, ao lado daquela investida do Radiohead
e das experiências do brasileiro Leoni
e do baterista americano Josh Freeze, vive inventando formas de oferecer, pela Web, os novos trabalhos de sua banda. Um lugar onde ele não esperava encontrar barreiras, no entanto, era a Apple – download ilegal? Não: censura.
Razor ofereceu à Apple um aplicativo para o idolatrado iPhone que faria com que fãs da banda pudessem localizar outros fãs e estabelecesse uma interação total entre eles e com a banda. Com esse aplicativo no celular de Steve Jobs, o usuário receberia músicas, datas dos próximos shows e muito mais.
Acontece que todos os aplicativos feitos para o iPhone passam por uma avaliação da Apple e a empresa vetou o aplicativo de Razor porque ele distribuiria, através do aparelho, conteúdo “obsceno, pornográfico, ofensivo ou difamatório” – um dos sucessos da banda, The Downward Spiral possui todos esses atributos aos olhos, quer dizer, ouvidos da Apple.
“Você pode comprar The Downward ‘Fucking’ Spiral no iTunes, mas não pode ter a música num aplicativo do iPhone. Vai entender a Apple”, desabafa Razor – e com razão. Não vou dizer que a letra de The Downward Spiral é bonita e singela, bem como boa parte da obra do Nine Inch Nails, mas a mínima coerência diz que, se a música não pode ser veiculada através de um aplicativo para iPhone por causa desses motivos, também não deve ser vendida pela loja online de música digital. Outra coisa: se vamos nos basear nas letras das músicas para censurar ou não determinado conteúdo nas plataformas da Apple, nomes como Nirvana, Eminem e Lily Allen entre muitos outros não poderiam fazer parte do catálogo da loja da maçã.
Entendo como “obsceno, pornográfico, ofensivo ou difamatório” no contrato da Apple uma forma de se proteger contra, por exemplo, filmes explícitos ou algum software que pregue o nazismo e racismo, mas vetar um aplicativo por conta de uma música que eles mesmos distribuem no iTunes, se não é hipocrisia, é puritanismo exacerbado.
Não tem problema: se o criador do iSnort pode vender este aplicativo de mau gosto para iPhones desbloqueados a 5 libras, não será um veto da Apple que impedirá a criatividade de Trent Razor de pensar em uma solução.
Inversão de papéis

Além de gostar muito da banda americana Queensryche, cujo último álbum, American Soldier, elogiei por aqui há pouco tempo, admiro e respeito muito o vocalista Geoff Tate como “cabeça pensante” no mundo do rock. Não é a toa que uma declaração do mesmo sobre a atual situação do mundo fonográfico frente à era digital me fez refletir (mais uma vez) sobre o assunto.
Em uma das várias entrevistas que ele vem dando por conta de American Soldier (essa, que eu cito aqui, eu li no site Whiplash), perguntaram a ele, assim como os jornalistas vêm perguntando a todos os artistas musicais, como andam as vendas de CDs e como eles vêm sobrevivendo neste cenário. Tate foi categórico: “Não ganhamos mais dinheiro vendendo álbuns. Poucas pessoas conseguem. Ainda amamos o que fazemos e continuamos a fazê-lo, mas o fazemos de forma distinta. O dinheiro vem de outros lugares”.
Na mesma entrevista, ele fala sobre seu encontro com o empresário Doc McGhee, bastante conhecido no meio musical, e fez a ele a pergunta que os jornalistas fazem aos artistas: o que está acontecendo com o mercado musical? O que as gravadoras estão fazendo para mudar isso? “A indústria não está fazendo nada”, disse Doc. “A coisa toda está indo para o banheiro. Vamos ter que achar outros modos para fazer isso tudo voltar a funcionar. (…) Você não pode ficar em um único lugar e viver disso para sempre. Não funciona assim. Você tem que ir onde a comida está. Você tem que ir onde o dinheiro está.”
A banda tem seguido esse conselho e se diz feliz como está hoje fazendo o que muitos outros grandes astros vêm fazendo: uma inversão de papéis. Se, antigamente, eles faziam uma turnê para divulgar um novo trabalho, hoje eles fazem um novo CD apenas para promover a nova turnê, que trará as músicas da nova obra, juntamente com seus grandes clássicos – é das turnês que eles ganham seu suado dinheirinho hoje em dia.
A verdade é que essa ordem não foi invertida: várias entrevistas vêm surgindo em veículos noticiosos de música, principalmente a partir da era Napster, onde os artistas dizem que ganham mais dinheiro dos shows do que da venda dos CDs – quem lucra mesmo com as bolachas prateadas são as gravadoras. A era digital apenas explicitou essa informação ao público, pedra que o polêmico e correto Lobão já cantava há tempos, desde quando brigava pela numeração dos CDs e fundou sua própria gravadora, brigando em pé de igualdade com as majors.
As declarações de Tate são apenas um exemplo de como os artistas estão se virando muito bem diante desta era que eu gosto de chamar de “nova música digital”, seja adaptando-se dentro das velhas regras ou experimentando o ambiente online para inovar e experimentar rumo a evolução do cenário fonográfico – exemplos já batidos como a forma como o Radiohead ofereceu seu In Rainbows ainda são bons cases a se considerar. Os próprios artistas ouviram o conselho do empresário McGhee e estão indo para onde o dinheiro está enquanto gerenciam suas próprias músicas, a forma de distribuí-las e suas carreiras. E as gravadoras? Ainda preocupadas com o download de músicas pela Web enquanto não dão atenção às suas galinhas dos ovos de ouro, que estão aprendendo a andar sozinhas em elas, não devem sair do banheiro pra onde a coisa toda está indo tão cedo…
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18 April 2009 Tock-Categoria: Música DigitalPressão fonográfica

Então os suecos do Pirate Bay foram condenados a um ano de prisão e a pagar uma multa de 30 milhões de reais (clique aqui para ler a notícia no portal da Folha). Condenado ainda não é preso, os caras têm a chance de entrar em recurso.
Logo que soube do fato, minha mente viajou no tempo até o início de todo esse circo: o século 20 estava em seus últimos anos quando o Napster, o primeiro e então único programa de compartilhamento de músicas, foi considerado ilegal. Um verdadeiro espetáculo na mídia, que narrava tudo em tempo real como se fosse uma luta de mundial de pesos pesados – e, de certa forma, era mesmo. De um lado, as grandes gravadoras, campeãs invictas há décadas, controladoras absolutas e incontestadas do mercado da música; do outro, o novato Shawn Fanning, criador do programa do “gato de headphone” que, ao aplicar um simples conceito de troca de arquivos através do uso da Internet, mudou para sempre o modo de o mundo enxergar o jeito de ouvir e comercializar música.
Assim como os suecos da “baía pirata”, Fanning também foi crucificado pelos coronéis da música, que comemoraram quando a corte decidiu que o Napster era, sim, um serviço ilegal que incita e facilita a pirataria de propriedades intelectuais. O Napster foi vendido e transformado em uma plataforma de comércio online de música, mas o ideal que o gato de headphone construiu cresceu em velocidade assustadora, mostrando que era apenas uma questão de tempo de este meio de ver e ouvir música mudar por inteiro – só estava esperando uma brecha para acontecer, se não fosse o Napster, seria outro recurso alguns meses mais tarde.
E quantos recursos foram surgindo, evoluindo e tornando-se populares para uma atividade vista como ilegal aos olhos da justiça! Redes diversas como Gnutella, e-Donkey, e-Mule, programas como Kaaza, Morpheus e Audiograbber, a tecnologia Torrent, sites de divulgação de arquivos Torrent como o Pirate Bay e tantos outros, comunidades no Orkut que divulgam links de CDs disponíveis nos Rapidshares da vida… Todos esses serviços, programas ou endereços na Web que eu acabei de citar foram ou são, de longe, alguns dos mais populares e adorados pelos internautas medium user pra cima – e os novos internautas já chegam na rede doidos para conhecê-los, de tanto que ouvem falar como é possível (e fácil) encontrar praticamente qualquer música que queira para baixar.
Mas peraí: isso não é criminoso, coisa feia, pecado, ilegal, imoral e engorda? Aos olhos da Lei como é descrita atualmente em vários países, sim. Não importa o argumento que você ou os advogados do Pirate Bay utilizam em sua defesa como eles não hospedarem as mídias digitais, mas apenas os links com indicadores de onde elas se encontram, pois o resultado é o mesmo: o internauta está baixando música (ou filmes, ou séries, ou programas, etc.) sem pagar aquilo que seus detentores têm o direito de cobrar. Isso que você baixa é um produto e, se você leva um produto e não paga, você está roubando.
“Opa, agora você pegou pesado”, deve estar pensando. “Está me chamando de ladrão?” Eu não: as gravadoras. Calcadas nas regras oficiais que o poder jurídico ainda segue, não-atualizadas e que ainda defendem o “método tradicional de comercializar música”, elas atacam usando o medo: a lei está do nosso lado, você é o ladrão e criminoso por não pagar aquilo que nós oferecemos e merece ir para a cadeia por nos roubar. Está aqui na Lei. Nós estamos certos e temos todo o direito de te acusar. A causa é ganha ao nosso favor, porque a Lei é clara: você está me roubando e nós, gravadoras, estamos sendo lesadas.
Gerações mais antigas acatariam estas ameaças sem pensar. Desinstalar os programas não bastaria: eles trocariam o HD e queimariam o disco atual em praça pública, com o software instalado, em uma demonstração pública de pânico das gravadoras e de andar fora da linha. A geração internauta, no entanto, não pensa assim: ela simplesmente continua mexendo o mouse com a mão direita enquanto levanta o dedo médio da mão esquerda por trás dos monitores. Quando um povo, uma comunidade, um grupo de pessoas de qualquer tipo levanta a voz contra as regras vigentes e essa voz ganha cada vez mais ecos que se juntam a elas, ocorre um fenômeno que resulta na revisão das regras vigentes, que se adaptam à nova realidade incontestável que toda essa comunidade vive, quer ela queira, quer não. A este fenômeno, damos o nome de revolução.
Estamos todos empolgados ao ver este cabo de guerra: ficamos empolgados ao ver uma vitória dos compartilhadores e enfurecidos quando as gravadoras ganham um round, mas a verdade é que, ao contrário do que todos pensam, esta revolução ainda não começou: ela ainda está fervendo, se formando, ganhando uma força descomunal, tal qual uma garrafa de Coca-Cola que vem sendo agitada, desde 1999, por uma máquina industrial superveloz de misturar substâncias.
Quando alguém abrir essa tampa, de que lado você vai estar?
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25 March 2009 Tock-Categoria: Música DigitalO “conceito” e o “objeto” música

Quando moleque, eu era aquele típico rato de lojas de rock que passava todos os dias nos mesmos três ou quatro estabelecimentos comerciais, de camisa preta de banda e boné pra trás, para folhear os discos (e, mais tarde, os CDs) nas prateleiras e fazer amizade com os donos das lojas e outros clientes que faziam a mesma coisa. Cheguei até a trabalhar em uma dessas lojas e até fazer parte de um programa de uma rádio de rock por curtíssimo tempo, só por causa disso. Toneladas de LPs e, mais tarde, de CDs na estante. Com a entrada da tecnologia e do MP3 na minha vida, nunca mais peguei nessas “mídias físicas” para ouvi-las. Consegui vender quase tudo. Sem pena ou remorso. Nunca mais freqüentei as lojas de rock – compro os lançamentos online e baixo as raridades que não encontro mais à venda em lugar nenhum.
O passado, no entanto, teima em bater na nossa porta de vez em quando – dois acontecimentos recentes me deixaram “nostálgico” desta época das mídias físicas: um deles foi quando, às vésperas do show do Iron Maiden na Praça da Apoteose, resolvi comprar uma camiseta da banda para ir devidamente “uniformizado” e logo pensei nas boas, velhas e empoeiradas lojas de sempre. Claro que não encontrei nenhuma, já havia acabado todas mas, ao passear pelas três lojas da mesma galeria, fui novamente contagiado pelo espírito de camaradagem da comunidade roqueira que, como sempre, tem o poder de aglomerar estranhos em uma verdadeira roda de bate-papo para falar de música e outros assuntos como se fossem todos velhos amigos. Não podia deixar de dar, também, aquela “olhadinha básica” nos CDs.
Outro momento foi quando não resisti à tentação e comprei os DVDs do Rush em um impulso consumista de fã da banda, como comentei em meu post anterior. Este ato de sair de uma loja com uma caixa na mão que continha um ou mais disquinhos prateados com músicas neles (independente dessas músicas virem acompanhadas de vídeo também) me deu uma sensação de estranheza e nostalgia ao mesmo tempo. Faz tantos anos que não praticava esta ação de pagar por música em “estado físico”… Chegando em casa, antes mesmo de colocar a bolacha prateada no aparelho, eu abri a caixa, vi o encarte, esmiucei todo ele, apreciei a arte, as fotos… Essa sensação de poder pegar aquilo que se obtém, de sentir que está realmente ali, não só o som, mas a obra artística, a composição… Foi uma sensação boa. Boa demais.
Me chame de antiquado, mas a verdade é que até hoje sinto falta dessa coisa “palpável” que a mídia física dava – caramba, sinto falta das capas e encartes maravilhosos dos antigos LPs! Por mais prático que seja a música digital (e realmente é, não vou andar para trás nesta questão), sempre sentia que perdi algo no meio do caminho quando abandonei o “objeto música” e adotei o “conceito música” e esses dois acontecimentos corriqueiros me mostraram esse algo: o sentimento de posse daquilo que você consome e a proximidade com aqueles de gostos semelhantes ao meu, uma proximidade física que a Internet que, por mais vasta e mais “conectiva” que seja, nunca conseguirá igualar.
Mas ainda não comentei uma curiosidade: nessas três lojas de rock onde fui atrás da camisa do Iron Maiden, eu, na faixa dos 30 anos, era, provavelmente, um dos mais novos nos recintos. Isso mostra que esse sentimento nostálgico e possessivo reflete mesmo um conflito de gerações – afinal, eu só senti o que senti porque eu vivi isso na minha adolescência. São sentimentos que as gerações mais jovens não terão, pois eles não viveram o “objeto música”, eles já nasceram conhecendo o “conceito música” como a única forma de ouvir música que lhes foram apresentados.
Não vou dizer que eu ou eles estamos errados ou certos, isso não existe – existe apenas a mudança do mundo e das formas como as coisas acontecem. O vinil e o CD duraram o que tinham que durar e foi muito bom ter vivido essas eras. A música digital também durará o tempo que tiver que durar e seja lá o que vier depois, que seja bem vindo. Mas vou guardar, lá no fundinho, aquele sentimento orgulhoso e infantil de poder erguer o nariz e dizer para os moleques da geração Y: “eu vivi uma época MARAVILHOSA da música que vocês nunca saberão como é sentir o que eu senti”. E não importa que eles não se importem com essa declaração. Eu sei do que estou falando. Eu senti. Eu sinto. E se você tem a mesma idade que eu e também se apaixonou por música na sua infância e adolescência, eu sei que você também sente isso. Orgulhe-se disso.

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