
Devido à absoluta falta de tempo, demorei para terminar de ler Grendel: Preto, Branco e Vermelho, que saiu há algumas semanas atrás pela editora Devir. É um material tão bom que foi um sacrilégio da minha parte lê-lo “à prestação”, pois as aventuras deste demoníaco assassino merecem toda atenção na hora da leitura.
Tive a sorte e privilégio de ser apresentado ao personagem ainda em minha adolescência, quando um amigo que tinha costume de comprar quadrinhos importados se encantou com a obra-prima do escritor e desenhista Matt Wagner. Grendel foi criado no início dos anos 80, mas somente nos anos 90, em meio ao bombardeio dos desenhos ultra-estilizados e roteiros fracos da então recém-criada editora Image, chegou às minhas mãos as histórias do elegante personagem que foge do lugar comum ao usar suas habilidades para se tornar, não um herói, mas o grande chefe do crime organizado de toda a América, espalhando o medo por todo o país enquanto os coadjuvantes acreditam que ele seja “o diabo caminhando entre os humanos”.
Sem super-poderes, Grendel torna-se um dos personagens mais interessantes dos quadrinhos modernos por conta da construção de um mito gigantesco ao redor dele e da ambientação dada pelo autor em seus contos. Wagner consegue as façanhas de escrever histórias policiais originais (algo difícil em um tema tão explorado) e de inserir graça e elegância nos momentos de sadismo e crueldade. Todas essas qualidades estão personificadas em seu personagem principal, o escritor de romances policiais Hunter Rose que, à noite, veste seu uniforme e máscara negros e governa o submundo do crime impiedosamente, dando ordens aos seus subordinados ou cumprindo missões que somente alguém com suas habilidades e total desprezo pela humanidade poderia executar. Após sua morte, outros descendentes adotaram o nome e o manto do demônio, criando assim um incrível legado.
Grendel: Preto, Branco e Vermelho NÃO É um encadernado de histórias regulares do personagem: trata-se, sim, de uma coletânea de histórias curtas escritas por Matt Wagner e ilustradas por diversos artistas como Mike Allred, Paul Chadwick, Tim Sale, Chris Sprouse e muitos outros convidados a emprestarem seus traços singulares à criação de Matt – todas em preto e branco com alguns detalhes ocasionais em vermelho. Essas histórias saíram originalmente lá fora em edições especiais que revelam um pouco do passado sombrio de Hunter Rose, não mostrado nas histórias regulares. Isso faz de Preto. Branco e Vermelho um excelente primeiro passo para conhecer Grendel com o pé direito.
O público brasileiro precisa mesmo de uma edição como esta para conhecer Grendel em sua plenitude. Em uma tentativa de emplacar o personagem por aqui, a editora Mithos publicou a minissérie em duas edições Batman X Grendel, apostando na popularidade do homem morcego para empurrar o assassino diabólico para o público brasileiro. O grande problema é que o Grendel que contracena com Batman não é o personagem original, mas um de seus descendentes que herdou a máscara e o nome. O herdeiro em questão, um robô com aparência humana, vindo do futuro, para resgatar os restos mortais de Rose, pode ser descrito como “o Exterminador do Futuro usando a mascara de Grendel”. Mesmo sem o “glamour” do personagem original ou de outros “herdeiros da máscara”, as histórias próprias desta versão futurista do personagem também são interessantes, mas fora de seu contexto para ser apresentado como “inimigo da vez” de Batman sem conhecimento de seu legado, torna-se apenas mais um brutamontes para o personagem mais querido da DC derrotar.
Se você ouviu falar de Grendel através desta minissérie em duas edições publicada pela Mithos, meu conselho para você é: esqueça-se dela. Limpe completamente sua mente e adquira agora mesmo este exemplar preto-e-branco com toques de vermelho. Sua alma será vendida ao diabo na primeira história e você me agradecerá por este conselho.